Meu voo de volta para o Brasil é hoje à tarde. Ainda arrumando ás malas, tantas coisas. Se eu pudesse levaria tudo, mas infelizmente não tem com levar tudo o que tem na Rússia e não tem no Brasil. O meu visto não vai ficar pronto a tempo necessário, então não vejo outra escolha a não ser voltar. Meu coração está super apertado, tento não pensar nisso, acostumei e apeguei-me demais com essa família russa, que agora tornou-se a minha família.

Na foto abaixo estão Papa e Mama que me receberam de braços abertos em seu lar e com eles aprendi muita coisa:

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Despedi do Papa, ontem, uma vez que quando ele chegar hoje eu já estarei no aeroporto, não é nada fácil despedidas e tento fazer dela a menos dolorida possível. Mama, foi ao mercado disse que vai comprar algumas coisas para eu levar, coitada está tão triste hoje, foi especialmente comprar chocolates e o pão preto para eu levar ao Brasil. Já olhei para janela do meu quarto umas quinhentas vezes hoje pela manhã e as lagrimas já escorreram, saudades já sinto das belas paisagens de inverno e da minha cidade russa favorita, São Petersburgo.

Do que mais vou sentir falta da Rússia? Com certeza dessa família que receberam-me como um membro dela, trataram-me como parte deles. Aprendi muito com eles e isso sou agradecido pelo resto da minha vida. Minha Mama foi uma professora, ensinou-me tudo o que estava ao seu alcance, sempre afirmando que eu tenho uma alma russa, com ela aprendi a escrever, a entender como um russo pensa, e até a lidar com as diferenças culturais e de mentalidade. Uma pessoa tão boa como ela vai estar para sempre em minha mente, em meu coração. Eu nunca vou esquecer das histórias que ela contava, sobre seu pai nas guerras da Finlândia e segunda guerra mundial com Alemanha e de quando a Rússia era URSS.

Na foto abaixo minha Mama russa:

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Uma mala acabei de lacrar, sinto que está cada vez mais difícil quando as horas passam, pois sei que daqui algumas horas estarei no avião longe deles e desse lugar que amo muito.

Um pouco assustado ao voltar para o Brasil, pois não sei como estão as coisas por lá depois desses três anos, pois agora sei como no Brasil faz calor aqui já faz oito meses que sinto frio, hoje mesmo está -10 graus, no Brasil falaram que está +35. Eu realmente encontrei meu lugar aqui na Rússia, aqui eu sinto como se fosse meu país. É estranho, mas acostumei tanto aqui que parece que volto não para casa, mas para visitar um outro país nesse caso Brasil. Eu sei, entendo que tudo tem seu tempo, meu tempo aqui acabou e tenho que voltar, tentei tudo que estava ao meu alcance junto com a família aqui, mas visto aqui é muito complicado para tirar, e foram semanas correndo atrás da documentação necessária, mas ao assinar o contrato descobrimos que o visto levaria um ano para ficar pronto e eu teria que estar aqui, uma vez que não tenho esse tempo, como na Rússia lei é coisa séria, apesar da grande corrupção que existe aqui, não é melhor brincar com essas coisas e queremos tudo correto, posso ir hoje, mas repito sempre comigo mesmo que um dia eu volto, nem que seja somente para passear, mas eu voltarei.

Mama, trouxe –me tantos chocolates, biscoitos, pão preto e chá tudo que adoro comprar aqui na Rússia e que vou sentir muita falta quando estiver no Brasil. Tive que providenciar mais espaço nas malas. Fui arrumar essas coisas na mala, quando ela entrou no quarto e disse quase que sussurro:” Você sabe que é um filho, pra mim e que se dependesse de mim não voltaria. Não esqueça da gente quando estiver no Brasil, pois nunca vamos esquece-lo.” Segurei as lagrimas, senti metade de mim permanecendo naquele lugar e segurei todas as células do meu corpo para não chorar naquele momento.

Foram três anos, e o primeiro dia que cheguei naquele lugar passava na minha mente como um filme, a sensação que foi ontem. Cheguei, em um local, totalmente diferente, todos falando russo, nunca senti-me tão feliz só pelo fato de ouvi as pessoas falando russo nas ruas, entretanto foi ai que eu pensei, estou em casa, adoro esse lugar. Por isso está tão difícil deixar esse lugar, mesmo sabendo que tenho de voltar, mas no fundo da alma você não quer isso, porque você achou seu lugar nesse mundo, você já sabe onde exatamente quer ficar e onde sente-se totalmente feliz e completo e o meu é aqui em São Petersburgo.

Faltam três horas para o táxi estar aqui no prédio, estou ansioso e muito, estava uma hora lá embaixo na neve, não sei quando vou ver neve novamente, por isso quis ver e andar pela neve antes de deixar tudo para trás, sei que vou sentir falta e muito dos dias de inverno com nevascas longas, das noites parecendo contos com a neve cobrindo completamente o parapeito da janela do meu quarto.

Sinto o peito apertar da saudade que vou sentir das paisagens de inverno como essa que não tem no Brasil.

Ao subir para o apartamento, senti o cheiro de blyni, pois adoro demais esse prato russo, e Mama fez enquanto estava lá embaixo, quis fazer-me uma última surpresa antes de viajar, queria que eu comesse o blyni dos deuses que ela faz como ninguém, precisava realmente comer aquilo antes de deixar tudo, Mama como sempre adora fazer alguma coisa gostosa na cozinha.

Blyni é tipo uma massa doce de panqueca, pode-se comer com leite condensado e tomando chá, assim como geleia também. No Brasil, tem a panqueca, mas aqui é um pouco diferente o sabor da massa, mas e uma delícia, sei que vou sentir muitas saudades de tudo isso.

Bom, o taxi chegou, coloquei as malas e subi, mas Mama escondeu-se no quarto, não quis que eu visse seu rosto molhado. Foi a despedida mais dolorida que já senti, segurei-me bastante, dos olhos dela escorreram duas lágrimas tímidas, disfarçadas para que eu não percebesse, mas eu percebi e vi o quanto essa família tornou-se minha. Nos despedimos, despedi daquela família, do bairro, e da minha cidade São Petersburgo. Volto para o Brasil.

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