Olá! Hoje resolvi escrever sobre uma grande poetisa russa. Ela nasceu em 1889 e teve uma vida difícil sobre o regime do ditador Stalin. Em 23 de junho de 1889 nascia a maior poetisa de todos os tempos Anna Akhmotova.

Tudo começou aos seus onze anos de idade, mas o pai, um engenheiro naval, temia que Anna viesse a desonrar o nome da família, convencido de estar a adivinhar hábitos decadentes associados à vida artística. Assim, assinou os seus primeiros trabalhos com o primeiro nome da sua bisavó, Tatar.

Apesar do seu pai ter abandonado a família, quando Anna contava apenas dezesseis anos, conseguiu prosseguir os seus estudos. Portanto, não só estudou no liceu feminino de Tsarskoe Selo e no célebre Instituto Smolnyi de São Petersburgo, como também no Liceu Fundukleevskaia de Kiev e numa faculdade de Direito, em 1907.

A obra de Akhmatova compõem-se tanto de pequenos poemas líricos como de grandes poemas, como o Requiem, um grande poema acerca do terror estalinista. Os temas recorrentes são o passar do tempo, as recordações, o destino da mulher criadora e as dificuldades em viver em escrever à sombra do estalinismo.

Tradução:

Levaram-te ao amanhecer,

Atrás de ti, como no enterro, eu ia,

No quarto escuro, choravam os meninos.

Acabava-se a vela sobre o altar,

Nos lábios teus, do ícone, o frio.

O suor mortal na testa…Não dá para esquecer!

Como as mulheres dos franco-atiradores,

Uivarei pelas torres do Kremlin.

1935. Moscou.

O marido foi fuzilado no regime comunista. Foi forçada a ficar longe da sociedade e viver com uma miserável pensão. Lembrando que suas poesias eram totalmente proibidas até o ano de 1952. Anna correu um grande risco de ser executada devido as suas poesias, onde muitas vezes demonstrava sua insatisfação com o poder totalitário do então ditador Stalin.

Tradução:

Tranquilo corre o Don silencioso,

Amarela, a lua entra em casa,

Entra, o boné de viés,

Vê uma sombra, amarela, a lua.

Essa mulher está enferma,

Essa mulher está só,

Marido na cova, filho no xadrez,

Rogai por mim.

Anna não teve uma vida nada fácil. A morte e o exílio de tantos amigos (Óssip, Marina Tzvietáieva – a grande poeta que se suicidou após o fuzilamento do marido a a prisão do filho –, Pasternak, entre outros), o próprio marido, (acusado de “anarquista” foi fuzilado) e, por fim, a prisão do filho, o golpe fatal, marcaram profundamente sua poesia.


Tradução:

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubram
O que se passou,
E levem embora os lampiões…
………………………..Noite.

Nessa poesia abaixo podemos notar o desespero de uma pessoa em pleno sofrimento na espera simplesmente da “morte”.


Tradução

À MORTE

De qualquer jeito virás – então, por que não vens já?

Estou te esperando: tudo para mim ficou difícil.

Apaguei a luz, abri a porta

para ti, tão simples, tão maravilhosa.

Para isso, toma o aspecto que quiseres:

entra como um obus envenenado,

ou sorrateira qual hábil bandido,

ou como as emanações do tifo,

ou sob a forma daquela fábula que tu mesma inventaste

e que todos já conhecem até a náusea –

na qual torno a ver o topo do quepe azul e,

por trás dele, o zelador pálido de medo.

Para mim dá na mesma. O Ienissêi corre turbulento.

A Estrela Polar brilha no céu.

O brilho azul dos olhos que eu amo

é recoberto por esse terror.

(19 de agosto de 1939, Casa Fontanka)

Só essa mulher sabe realmente o terror que viveu todos esses anos. Não tinha uma outra maneira de expressar sua dor, seu sofrimento a não ser nas poesias, onde ela podia colocar toda a sua dor, mesmo assim eram poesias proibidas e jamais aceitas para que outros as lessem. É claro que não foi somente ela, mas os russos na época do poder totalitário de Stalin, não tinham o direito de expressar-se, era um regime totalmente fechado e qualquer coisa suspeita ou contra ia do campo de concentração na Sibéria até mesmo ao fuzilamento.


Tradução

Já a loucura com as suas asas

envolveu-me toda a alma,

me encharcando em seu licor,

levando-me ao vale das sombras.

Ouvindo o meu delírio

como se fosse o de outra,

está certo, sei que devo

admitir que ela venceu.

Eu sei que não deixará

que eu leve nada comigo

(por mais que eu lhe peça,

por mais que eu lhe implore):

nem os olhos do meu filho

que a dor petrificou,

nem o dia do terror,

nem o dia da visita,

nem o frio de suas mãos,

nem o tremular dos álamos,

nem o som que vem de longe,

últimos sons de consolo.

(4 de maio de 1940, Casa Fontanka)

Tradução:

O VEREDICTO

E a pétrea palavra caiu

sobre o meu peito ainda vivo.

Pouco importa: estava pronta.

Dou um jeito de agüentar.

Hoje, tenho muito o que fazer:

devo matar a memória até o fim.

Minha alma vai ter de virar pedra.

Terei de reaprender a viver.

Senão… o ardente ruído do verão

é como uma festa debaixo da janela.

Há muito tempo eu esperava

por este dia brilhante, esta casa vazia.

(22 de junho de 1939, Casa Fontanka)

Hoje dia 23 de junho de 2016, Anna completa 130 anos. Nas TVs aqui na Rússia transmitem reportagens e falam das belas poesias da grande poetisa russa que faleceu em 1966 na cidade de Moscou.

O museu de Anna Akhmotova encontra-se na bela cidade de São Petersburgo.

O palácio Sheriemietieva.

 

Na foto a escrivaninha de Anna.

 

 

 

Depois da prisão do marido e morte dele, Anna deixou o casaco dele no cabide em pendurado para lembrar dele para sempre. Encontra-se até os dias de hoje no mesmo local e do jeito que ela deixou.

 

Essa é a cozinha dela. Tudo do mesmo jeito que ela deixou.

 

Na foto abaixo esta Anna Akhmotova com o marido e o filho. Foto de 1915.

Bom, para encerrar colocar mais uma bela poesia de Anna Akhmotova.

Tradução

As semanas leves

vão-se embora.

O que aconteceu eu não entendo.

Como a ti, meu filho, na prisão,

vieram contemplar as noites brancas,

e ainda te contemplam,

com seus ardentes olhos de falcão,

e da tua alta cruz

e de tua morte falam.

(1939)

Até a próxima!

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